Belo Horizonte, 15 de agosto de 2008. Prezados colegas, Vejam
o notável artigo do Ministro Carlos Velloso, relembrando a convivência
que manteve com o Ministro Sebastião Alves dos Reis, desde 1967,
lá se vão quarenta e um anos. Sebastião Alves dos
Reis presidiu o Centro Jurídico Brasileiro, desde o seu surgimento,
em maio de 1997, até o dia 9 de agosto do ano em curso. A palavra
de Carlos Velloso sobre o morto ilustre, em espaço tão
curto como é o do jornal, é uma síntese extraordinária
do que pode realizar homens da dimensão de Sebastião Alves
dos Reis. Também
eu tive o privilégio de sua convivência, quase diária,
nesses últimos 11 anos, enquanto membro do Conselho Superior do CJB.
Conhecia-o, contudo, também desde aquele distante ano de 1967, quando
atuei na Justiça Federal, então reimplantada no Brasil
pelo Presidente Castelo Branco. Com a perda
de Sebastião Alves dos Reis, o Centro Jurídico Brasileiro passa
a ser presidido pelo próprio Ministro Carlos Mário da Silva
Velloso, seu Vice-Presidente. Cordial
e atenciosamente, Orlando Vaz Sebastião Reis, múltiplo Carlos Mário Velloso - Ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Os mineiros notáveis estão nos deixando. Recentemente, morreu Abílio Machado Filho; depois, José Cabral; e, no dia 9, faleceu o ministro Sebastião Alves dos Reis, com quem convivi por mais de 40 anos. O nosso ingresso na magistratura federal ocorreu em 1967. Deveríamos instalar, em Minas, a Justiça Federal. Éramos seis juízes: Pereira de Paiva, Sebastião Reis, Fernando Pinheiro, João Toledo, Gilberto Lomônaco e eu. Pereira de Paiva, titular da 1ª Vara, ficou incumbido, com os demais colegas, da instalação da Justiça. Sebastião Reis e eu fomos designados para despachar e decidir mandados de segurança, habeas corpus e demais medidas urgentes. Não dispúnhamos de gabinete, de papel, de máquina de escrever, de servidores. Acomodamo-nos no gabinete de uma das varas da Fazenda Pública do Estado, que estava vaga. Assentávamos num mesmo birô. Ali, com o auxílio dos servidores da Vara, a Justiça Federal de Minas decidiu os primeiros mandados de segurança, os primeiros habeas corpus, as primeiras medidas urgentes, que não foram poucas. Conheci, no convívio diário e diuturno, primeiro, o homem Sebastião Reis. Dedicado à família, formava, com a esposa, Lúcia, e os filhos, João Tadeu, Pedro Paulo e Sebastião Júnior, uma família perfeita. Depois do expediente, eu o levava no meu carro até a sua casa. Não por poucas vezes ficávamos a conversar, na sua biblioteca, sobre as coisas da vida, sobre o direito tributário, de que era mestre incomparável. De fina sensibilidade, discutia idéias, formulava teses, comentava os acontecimentos. Jamais ouvi de sua boca uma palavra que deixasse mal qualquer pessoa. Li, alhures, que os homens superiores cuidam de idéias; os médios, de fatos; e os inferiores, de pessoas. Sebastião Reis, homem superior, ficava sempre no campo das idéias. Professor de direito, foi jurista de escol. Quando de sua posse e de mais sete ministros, em 1980, entre eles Pereira de Paiva, no antigo Tribunal Federal de Recursos (TFR), tive a honra de saudá-los em nome do tribunal. Revelei, então, que Sebastião Reis era um scholar, no estilo harvardiano, e que os meus primeiros passos no campo do direito tributário foram por ele seguramente conduzidos. Homem modesto, disse-me que se emocionara com a revelação que eu fizera. Os verdadeiros juristas, os cientistas, primam pela humildade. Os artigos de doutrina que escrevia eram disputados pelas revistas especializadas. Aposentado por implemento de idade, assumiu, pouco tempo depois, a presidência do Centro Jurídico Brasileiro, entidade criada por Orlando e Isabel Vaz, para o fim de estudar o direito. Regularmente, comparecia ao Centro Jurídico, onde elaborava pareceres, artigos de doutrina, palestras e conferências. Muito haveria o que dizer do juiz de verdade que
foi Sebastião
Reis. Conta o advogado Genival Tourinho que, por volta de 1970, proferiu
ele sentença, numa ação em que Genival era advogado,
que desagradara ao militar que presidia certo órgão federal.
Teria o militar, de alta patente, apregoado que, se a decisão
fosse contrária a sua repartição, providenciaria
ele a cassação do seu prolator. Sebastião Reis não
se incomodou. Encerrada a audiência, na qual a sentença
foi publicada, declarou, alto e bom som: ”Perco o cargo, mas não
perco a honra”. Convém esclarecer que não era ele
homem de arroubos. Juiz austero, punha-se longe dos holofotes. Mas há momentos
em que o magistrado deve proclamar os seus princípios. Era assim
que procedia o juiz Sebastião Reis. As suas sentenças,
no primeiro grau, os seus votos, no antigo TFR, fizeram escola. Quando
votava, o tribunal o ouvia atentamente. Era o mestre que ensinava, mas,
sobretudo, o grande juiz que tinha por divisa a lição de
Vauvenargues, nas suas Reflexões e máximas: “Não
se pode ser justo se não é humano”. O ministro Sebastião
Reis não está mais entre nós. O exemplo de homem
e de juiz e as lições que nos deixou permanecem, entretanto,
conosco, fazendo viva a sua memória. Penso que é nesse
sentido a sentença de Guimarães Rosa: “As pessoas
não morrem, ficam encantadas”. |