Escritórios
lançam planos de assistência jurídica
para captar clientes
Valor Econômico, 31 de Julho de 2001
Henrique Gomes Batista, de São Paulo
O cliente paga uma taxa por mês e tem direito
a diversos serviços jurídicos, que variam
de simples consultas ao ajuizamento de processo judiciais.
Nos moldes dos planos de saúde, esta é
a novidade que alguns escritórios de advocacia
lançaram: planos de assessoria jurídica.
A proposta, entretanto, nasce cercada de críticas.
Segundo alguns especialistas, ela incorre em vários
deslizes éticos.
O escritório Esteves de Carvalho - Advogados
Associados, do Rio de Janeiro, cobra R$ 38,00 ao mês
por seu Plano Standard, que dá ao cliente direito
a consultas, análises e ações judiciais
cujo valor da causa não ultrapasse R$ 25 mil
nas áreas cível e familiar. Pagando R$
68,00, o cliente adiciona a "cobertura trabalhista".
Para o advogado Murilo Esteves de Carvalho, dono do
escritório, esta é uma tendência
que os advogados deverão seguir. "Os clientes
se sentem seguros por ter um cartão personalizado",
diz. Outro exemplo de plano de assistência jurídica
é o praticado em 52 cidades do país pelo
escritório Bandeira de Melo, com sede em São
Paulo. Atingindo mais de 217 mil pessoas, através
de convênios com o Exército, Aeronáutica
e polícias, o escritório mantêm
um serviço telefônico gratuito 0800 para
emergências, funcionando 24 horas por dia. Já
são mais de 33 mil ações em andamento
em que figuram como partes os conveniados. Eles têm
debitados em seus salários a quantia de R$ 12,00,
mediante a qual têm direito a consultas, defesa
em processos judiciais e abertura de ações.
A prática, no entanto, é polêmica.
O presidente do Primeiro Tribunal de Ética da
secional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP),
Robison Baroni, vê graves falhas nos planos. "Esta
prática funciona com um 'curral de clientes',
além de transmitir uma falsa sensação
de segurança, pois o escritório não
poderá defender o cliente em um eventual processo
contra outro conveniado", afirma. Para o presidente
da seccional do Rio de Janeiro da OAB, Octávio
Gomes, no entanto, o procedimento é normal. "Se
o cliente foi ao escritório e assinou o contrato,
o plano não tem problemas",diz.
Segundo o presidente do Instituto dos Advogados de São
Paulo (IASP), Nelson Kojranski, a criação
de planos de assistência jurídica fere
diversas diretrizes da profissão, como a captação
de clientela e a mercantilização da profissão.
Já a advogada Clemencia Wolthers, presidente
do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados
(CESA), lembra que o Tribunal de Ética
da OAB de São Paulo já considerou antiética
uma proposta semelhante de um escritório paulista,
em 1994, além de possuir várias consultas
que condenam as características comuns a estes
planos.
O advogado Murilo de Carvalho afirma que, nos contratos,
há regras claras sobre os preceitos éticos
dos advogados, como a autonomia do escritório
em negar ações que julgue improcedente.
O Conselho Federal da OAB ainda não analisou
o caso, mas a matéria deverá entrar em
pauta na próxima reunião, que acontece
no dia 6. |