Advogados
querem mudar as regras e investir em publicidade
Valor Econômico, 10 de Agosto de 2001
Henrique Gomes Batista, de São Paulo
Cerceada por restrições éticas,
a publicidade na advocacia brasileira começa
a ser alvo de investidas de escritórios, advogados,
associações profissionais e até
de alguns conselheiros da Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB), que defendem uma maior flexibilização
no regulamento da instituição neste quesito.
Apesar de recentes, o Código de Ética
e Disciplina, editado pela Ordem em 1995, e o provimento
nº 94/2000, que o Conselho Federal da OAB publicou
há menos de um ano para regular a publicidade
do setor, têm críticos que consideram que
suas limitações estão em descompasso
com a economia moderna e desatualizadas para a sociedade
contemporânea.
O aumento de consultas aos tribunais de ética
das seccionais da OAB nos Estados a respeito da publicidade
é um indicativo deste movimento. No Tribunal
de Ética e Disciplina da seccional paulista da
OAB há 2.400 processos administrativos e 1.500
processos disciplinares em andamento que tratam exclusivamente
do tema. "Recebemos em média 250 consultas
ao mês abordando aspectos da publicidade na profissão",
diz o presidente da primeira turma do Tribunal de Ética
da OAB-SP, Robison Baroni. Embora não tenha números,
a seccional da OAB no Rio de Janeiro observa o mesmo
fenômeno. "O interesse pelo assunto aumentou",
diz o advogado Álvaro César Rodrigues
Pereira, conselheiro da OAB-RJ.
Estes números são o reflexo da tentativa
de alguns advogados de buscar alternativas às
restrições existentes no Código
de Ética da OAB. Muitos apelam a formas mais
discretas de publicidade, como o uso de adesivos em
carros, a publicação de anúncios
em revistas de público selecionado e até
o patrocínio de embalagens de açúcar,
como já presenciou Robison Baroni.Outros acabam
apelando a formas mais intensivas, como anunciar em
classificados de jornais com chamadas que oferecem seus
serviços e iluminar as cidades com extravagantes
outdoors.
Apesar das tentativas de usar a propaganda para conquistar
clientes, os principais escritórios não
querem a liberação total da publicidade
em sua atividade, mas sim uma maior flexibilização
da sua regulamentação. "A flexibilização
da publicidade é uma tendência irreversível",
acredita Thomas Felsberg, sócio do escritório
Felsberg e Associados - Advogados e Consultores Legais.
"Quando algumas restrições se tornarem
obstáculos efetivos aos grandes escritórios,
a prática publicitária deverá ser
inicialmente tolerada e posteriormente legitimada pela
Ordem", prevê.Segundo ele, as restrições
à publicidade servem a um modelo tradicional
de advocacia em que o profissional tem contato direto
com o cliente para o qual presta serviços. Mas
não mais ao modelo dos grandes conglomerados
de advogados que vem crescendo no Brasil, em que o cliente
é atendido por uma equipe.
Para a presidente do Centro de Estudos das Sociedades
de Advogados (CESA),Clemencia Wolthers, também
sócia do escritório Pinheiro Neto Advogados,
as regras éticas da Ordem são justamente
mais voltadas aos "advogados de fórum"
do que aos escritórios empresariais. Mesmo assim,
ela ressalta que a OAB permite muitas formas de propaganda
e que falta aos advogados um melhor entendimento da
lei. Segundo ela, malas diretas, folders de apresentação
e até anúncios em jornais e revistas,
desde que atendidos alguns requisitos, são instrumentos
permitidos e utilizados pelo seu próprio escritório.
"Concordamos com as restrições da
Ordem, que prezam pela discrição e moderação,
mas as regras precisam se ajustar à realidade
do mercado atual", afirma. Ela também não
vê problemas na liberação de anúncios
em rádio e televisão e na utilização
de fotos em impressos, desde que respeitando os preceitos
da publicidade permitida. Mesmo dentro do Conselho Federal
da OAB não há consenso em relação
à publicidade. O advogado Alfredo de Assis Gonçalves
Neto, relator do provimento 94/2000, diz que não
vê problemas na liberação de alguns
itens que hoje são considerados antiéticos,
como a utilização de nome fantasia por
escritórios. "Mas é preciso uma fiscalização
maior para combater a propaganda ostensiva", diz.
|