Profissão
de administrador de bancas pode ser regulamentada
Valor Econômico, Sexta-feira, 31 de maio de 2002
Pode estar surgindo mais uma profissão para
os bacharéis em direito no Brasil: administrador
de escritório de advocacia. O assunto já
está em estudo há três meses na
Comissão de Sociedades de Advogados da seccional
paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP)
e poderá ser motivo de um provimento do Conselho
Federal da Ordem. A proposta, ainda longe do consenso
necessário à sua aprovação
pela OAB, surge ao mesmo tempo em que as sociedades
de advogados aumentam seu peso no mercado e que cresce
o número de cursos de especialização
destinados aos administradores de escritórios.
O advogado e idealizador da proposta, Romualdo Galvão
Dias, membro do Centro de Estudos das Sociedades
de Advogados (Cesa) e da Comissão de
Sociedades de Advogados da OAB-SP, quer que ela seja
aprovada pela comissão e pela seccional paulista
da OAB antes de se apresentada ao Conselho Federal da
Ordem. Caso isso não ocorra, entretanto, ele
já decidiu apresentá-la individualmente.
Dias espera que todo o processo necessário para
a aprovação do provimento possa levar
até dois anos.
A proposta, polêmica, prevê que o administrador
de escritório seja, necessariamente, um bacharel
de direito. "Existem alguns impedimentos éticos
aos escritórios, como a impossibilidade de
divulgação de causas, clientes e restrições
de publicidade, que necessitam ser observadas pela
OAB, que têm sua competência exclusivamente
sobre os advogados", afirma o advogado, que também
preside o Tribunal de Ética e Disciplina IV
da OAB-SP.
Em seu projeto, a OAB criaria uma nova forma de exame
da Ordem para absorver estes profissionais, que teriam
cadastramento diferenciado dos demais advogados -
assim como os consultores em direito estrangeiro -
e não poderiam atuar em processos judiciais.
"Poderíamos, talvez, exigir que o administrador
tenha uma pós-graduação em administração
ou economia ou que um profissional destas áreas
possa ser aprovado mediante uma especialização
em direito", diz.
O advogado acredita que o atual momento do direito privilegia
a regulamentação desta profissão.
Números da OAB-SP demonstram que nunca foi tão
grande o número de registros de sociedades de
advogados. Somente em São Paulo, o número
de sociedades mais que dobrou nos últimos cinco
anos (ver quadro ao lado). "Acredito que toda a
banca que possui mais de 20 advogados necessite de uma
administração profissionalizada",
afirma. Para completar, Dias prevê um novo momento
para a advocacia brasileira. "Áreas que
hoje não são muito organizadas por grandes
bancas, como o direito penal ou de família, deverão
adotar estrutura semelhantes às bancas especializadas
em direito corporativo pelos próximos anos",
diz.
A proposta, entretanto, não é consensual
entre as principais referências no assunto. Embora
o mercado realmente esteja passando por um período
de ebulição na área de sociedades
de advogados, com uma forte tendência para a profissionalização
das administrações das bancas, a competência
da OAB em regulamentar a função de administrador
de escritório pode se chocar com a regulamentação
de outras profissões já existentes.
"Acho interessante a proposta como idéia
e para estudo, mas não acredito que o assunto
seja pertinente à atuação da Ordem",
afirma a advogada Clemencia Wolthers, sócia do
Pinheiro Neto Advogados e presidente do Cesa. O advogado
Orlando Giácomo Filho, sócio do escritório
Demarest & Almeida Advogados e presidente das comissões
de sociedades de advogados tanto da seccional paulista
quanto do Conselho Federal da OAB, concorda com Clemencia.
"O que os escritórios buscam é o
diferencial técnico de outras profissões",
diz.
O aumento do interesse pela administração
de escritórios é sentida no crescimento
de cursos de especialização sobre o
tema. Recentemente criado pela Fundação
Getúlio Vargas de São Paulo, o curso
que abrange esta área de conhecimento como
especialização também será
fornecido no segundo semestre pela Escola Superior
de Advocacia da OAB-SP e pela Escola Nacional de Advocacia
do Conselho Federal da Ordem. "A principal diferença
entre eles é a falta de caráter técnico-administrativo
no curso federal", afirma Giácomo Filho.
O curso estadual deverá começar no dia
22 de agosto e está em fase final de planejamento.
A OAB federal também está preparando,
sem data prevista para lançamento, uma cartilha
para as sociedades de advogados.
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