Agências
e tribunais fazem efervecer o mercado de Brasília
Valor Econômico, terça-feira, 4 de Junho
de 2002
Layrce de Lima, de Brasília
A necessidade de possuir infra-estrutura próxima
aos tribunais superiores, órgãos jurídicos,
ministérios e agências reguladoras tornou
a instalação de filiais no Distrito Federal
um dos principais objetivos dos grandes escritórios
de advocacia do país. O movimento em direção
à capital federal se intensificou nos últimos
dois anos, com a instalação de escritórios
como Tozzini, Freire, Teixeira e Silva Advogados, vindo
de São Paulo e Xavier Bernardes Bragança,
do Rio de Janeiro. Mas, o potencial do novo mercado
já era perceptível desde a década
de 90.
Nos últimos dez anos, se fixaram em Brasília
as filiais do Machado Meyer Sendacz e Ópice;
Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey Jr e Advogados; Wald
Advogados Associados; Trench Rossi E Watanabe; Demarest
& Almeida; Barbosa Müsnich & Aragão
e Veirano Advogados Associados. De acordo com o Centro
de Estudos das Sociedades de Advogados (CESA),
já são 20 escritórios de grande
porte com filiais em Brasília. Um contraste com
a década de 70, quando apenas o Pinheiro Neto
Advogados mantinha um representante na cidade.
Sócio do escritório Manesco, Ramires,
Perez, Azevedo Marques Advocacia, que acaba de se mudar
para Brasília, o advogado Eduardo Ramires, acredita
que o grande atrativo do mercado está nas agências
reguladoras (Anatel, Aneel) e órgãos como
o Conselho Administrativo de Defesa Econômica
(Cade). "O atual volume de atividades é
mais intenso do que tínhamos antes", esclarece.
"Eu acompanhava mais facilmente os tribunais do
que a matéria regulatória que necessita
de nossa atenção agora", admite Ramires.
De acordo com Ramires, seu escritório tem mais
força para defender seus clientes com a nova
filial. "Antes de editar normas administrativas,
as agências apresentam consultas públicas,
das quais devemos participar", conta. Tânia
Mara Camargo Falbo, do Demarest & Almeida, concorda.
"A base aqui dá muito mais segurança
até para os clientes porque amplia as possibilidades
do escritório lidar com tribunais e agências",
diz Tânia.
O aumento na quantidade de empresas que atuam na área
de telecomunicação e energia após
as privatizações também provocou
um "boom" nos contratos de representação
(correspondência ou associação),
fechados entre escritórios de outras capitais
e os originais de Brasília, que assumem o compromisso
de defendê-las perante o Executivo e os tribunais
superiores. A Advocacia Fernanda Hernandez é
exemplo entre os escritórios brasilienses procurados
inicialmente para estes contratos de representações
que hoje atua fortemente no setor de mineração
e siderurgia, eletroeletrônicos e telecomunicações,
fechando contratos diretos com as empresas. "O
que está acontecendo agora é uma especialização
muito grande da advocacia", diz Fernanda. "A
abertura das filiais se justifica por causa da busca
de excelência".
Ela acredita que o acompanhamento de processos nos tribunais
superiores ainda pode provocar um crescimento das filiais
já instaladas no Planalto Central. "Casos
que no início dos anos 90 eram solucionados em
3 anos, hoje levam de 10 a 12 e é preciso aumentar
a estrutura para acompanhá-los", esclarece.
A advogada não acredita, entretanto, que escritórios
de outros centros continuem a se mudar para a capital
federal. "A tendência é de que o mercado
se estabilize", diz.
O ex-juiz Marcelo Bessa, que hoje atua no Ávila
de Bessa e Guimarães Falcão Advogados,
vai mais longe. "A partir de agora devem acontecer
associações", arrisca. "A pulverização
do mercado vai acabar dentro de 5 ou 10 anos com os
escritórios se fundindo inclusive para enfrentar
a concorrência que vem de fora". Bessa ainda
acredita que advocacias originalmente brasilienses poderão
abrir filiais em outras capitais, expandindo-se em nível
nacional.
Pioneiro na exploração do mercado brasiliense,
Antônio Carlos Gonçalves foi o primeiro
advogado enviado de São Paulo pelo escritório
Pinheiro Neto em 1977. Depois de defender uma causa
envolvendo a faixa de fronteira do Paraná,
Gonçalves ficou na capital federal, mas conta
que a idéia inicial era voltar para São
Paulo em dois anos. "Nunca aconteceu", brinca.
"Há um momento em que o mercado se assenta,
mas nós temos que ter em mente que Brasília
tem apenas 40 anos e há muito o que se fazer",
avalia". Segundo Gonçalves, o crescimento
do mercado veio após os governos militares
e tende a continuar. "O Estado de Direito está
sendo exercitado com o Código do Consumidor,
a Lei anti-truste dentro dos tribunais superiores",
completa.
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