Projeto
altera 8% do Código Civil antes de sua vigência
Valor Econômico, Quinta-feira, 6 de junho de 2002
O novo Código Civil deverá receber, na
próxima semana, sua primeira grande proposta
de alteração na Câmara dos Deputados,
antes mesmo de entrar em vigor. O anteprojeto que será
apresentado pelo deputado Ricardo Fiúza (PPB-PE)
- relator do novo código em sua última
etapa legislativa - propõe mudanças em
155 dos 2.046 artigos da nova lei. Ou seja, cerca de
8% do total dos itens presentes na legislação.
Este número, entretanto, poderá aumentar
nos próximos dias, quando a redação
final for acrescida das últimas sugestões
analisadas pela comissão que está elaborando
o projeto. Estas alterações poderão
criar um ambiente de insegurança jurídica
pois enfraquece o novo Código Civil, que já
demorou 27 anos para ser aprovado pelo Congresso Nacional.
O objetivo de Fiuza é que o projeto seja aprovado
antes da entrada em vigor do novo Código. A idéia
de se aglutinar todas as propostas em um único
projeto, visando o mesmo aprimoramento dos diversos
capítulos do código, poderá dificultar
a aprovação do projeto em sete meses,
já que deverá ser alvo de muitos debates
e passará por diversas comissões das duas
casas legislativas.
Outro ponto questionado por juristas é a forma
como as propostas estão sendo apresentadas, já
que alterações vultuosas de lei vão
contra a atual tendência de mudança legislativa.
Isso é o que está ocorrendo com o Código
de Processo Civil (CPC) que sofre modificações
a partir de uma série de projetos que tramitam
de forma independente. Outro complicador é a
tramitação deste projeto de alteração
do novo código civil no segundo semestre de um
ano eleitoral.
A advogada Regina Beatriz Tavares da Silva, que participou
da elaboração de propostas para as áreas
de família e responsabilidade civil, acredita
na possibilidade da aprovação do projeto
antes da vigência do novo código. Caso
isso não ocorra, a advogada não vislumbra
grandes problemas jurídicos se a aprovação
ocorrer depois da entrada em vigor do Código.
"O país não sofrerá maior
insegurança jurídica que a sofrida com
a entrada em vigor da Constituição de
1988 ao mesmo tempo que existia um um Código
Civil defasado", diz.
A situação não poderá ser
tão tranqüila assim, pois depende da abrangência
final que o projeto pode ter, na opinião do advogado
Giovanni Ettore Nanni, sócio do escritório
Tozzini, Freire, Teixeira e Silva Advogados. Ele vê
alguns problemas com um projeto muito grande, que poderá
trazer algum descompasso com outras leis ou projetos.
"A proposta de alteração do artigo
944 do novo Código, por exemplo, é diferente
de um projeto que trata de indenização
por dano moral aprovado na última semana na Comissão
de Constituição e Justiça do Senado",
diz, defendendo a apresentação de projetos
menores, temáticos.
As principais alterações deverão
ocorrer no livro sobre empresa. Para o advogado Mário
Delgado, participante da comissão de elaboração
do projeto e assessor de Fiúza, o projeto está
em fase final de redação e deve ser apresentado
na próxima semana, incluindo as alterações
apresentadas na área de empresa, que foram debatidas
no dia 27 de maio, em São Paulo.
De acordo com a advogada Beatriz Padovan Pacheco, sócia
do escritório Pinheiro Neto Advogados, que participou
do evento promovido pela seccional paulista da Ordem
dos Advogados do Brasil (OAB-SP) e pelo Centro
de Estudos das Sociedades de Advogados (Cesa),
algumas alterações no capítulo
de empresas são primordiais. "Da forma como
está, o código pode trazer dúvidas
sobre assuntos pacificados há mais de 20 anos",
diz. Para ela, é importante rever a regulamentação
do nome comercial, das empresas estrangeiras e segregar
a legislação das empresas limitadas.
O advogado Daniel Martins Boulos, do Machado, Meyer,
Sendacz e Opice, lembra que a mudança não
será inédita. "O código
de 1916 passou por algumas revisões em 1919",
diz. Para ele, o ponto mais relevante do projeto é
a colocação de um artigo no novo código
para revogar expressamente leis conflitantes com a
nova regra.
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