Flexibilização
da advocacia estrangeira está afastada
Valor Econômico, 23 de Agosto de 2002, Cad. Legislação
& Tributos
Daniela Christovão, de São
Paulo
Na segunda-feira acontece no Rio de Janeiro o I Encontro
Nacional Itamaraty-Escritórios de Advocacia.
O encontro tem por objetivo criar um canal entre o Ministério
das Relações Exteriores (MRE) e os escritórios
brasileiros para que esses auxiliem os diplomatas em
negociações e processos no âmbito
da Organização Mundial do Comércio
(OMC). Esse auxílio seria uma maneira de dar
maior visibilidade aos serviços jurídicos
brasileiros. E tal visibilidade seria essencial caso
o plano dos advogados seja a exportação
de serviços, matéria tratada durante as
negociações da Rodada de Doha para a liberalização
do comércio de serviços no mundo.
Desde o semestre passado o Itamaraty está fazendo
um levantamento sobre a restrição do mercado
de prestação de serviços no Brasil
aos estrangeiros. De serviços financeiros a serviços
de arquitetura, todas as regulamentações
estão sendo analisadas, e as entidades brasileiras
envolvidas estão sendo procuradas para se saber
os reais interesses e necessidades econômicas.
Foram feitos alguns encontros com o Centro de
Estudos das Sociedades de Advogados (Cesa),
o que levantou suspeita no mercado de que o Itamaraty
estaria negociando no âmbito da Rodada de Doha
a flexibilização do Provimento nº
91/00 da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Esse provimento
possibilita a atuação de advogados estrangeiros
no Brasil desde que atuem em direito estrangeiro. Em
reunião entre os diretores do Cesa e representantes
do MRE em 12 de agosto, o Itamaraty deixou claro que
tal flexibilização não está
em pauta.
Segundo Felipe Hees, coordenador nacional interino do
comércio de serviços do Itamaraty, o objetivo
dos diplomatas ao entrar em contato com a OAB e com
o Centro de Estudos dos Advogados (Cesa)
é saber quais são os objetivos das restrições
à entrada de serviços jurídicos
estrangeiros no Brasil. "Apuramos que o que se
tenta é afastar determinados modos de prestação
de serviço", diz Hees.
O primeiro modo afastado pela regulamentação
brasileira é a presença comercial. Ou
seja, o afastamento da possibilidade de um escritório
estrangeiro se instalar no Brasil como pessoa jurídica
e desenvolver atividades próprias dos advogados
brasileiros. A outra forma de prestação
de serviço afastada pelo Provimento nº 91
é o movimento temporário de pessoa física
prestando serviços em território nacional.
"Deixaremos claro nas negociações
para o Acordo Geral sobre Comércio de Serviços
(em inglês, GATS) que a nossa posição
é de não negociar flexibilização
sobre esses modos de prestação de serviço",
diz Hees. "Mas tal posição afasta
também a possibilidade de diminuir restrições
em outros países, dificultando a projeção
dos serviços jurídicos brasileiros para
o exterior, o que permitiria um incremento na exportação
de serviços", diz Hees.
Para o presidente da Comissão de Relações
Internacionais do Conselho Federal da OAB, Reginaldo
Castro, flexibilizar o Provimento nº 91 em troca
de um aumento da exportação dos serviços
jurídicos brasileiros é um engôdo
e uma submissão brasileira aos anseios do comércio
internacional. Castro também não concordou
com o encaminhamento das discussões sobre os
serviços jurídicos brasileiros na Rodada
de Doha. "A OAB não foi chamada às
reuniões. E, pelo estatuto da OAB, que tem força
de lei, qualquer discussão oficial sobre a forma
de trabalho dos advogados deve ser feito no âmbito
da OAB. É dela a competência para tanto",
diz Castro.
A presidente do Cesa, Clemência
Wolthers, sócia do escritório Pinheiro
Neto, esclareceu ao Itamaraty que qualquer assunto envolvendo
os advogados e os serviços jurídicos deve
ser tratado com a OAB. Foi o Cesa que colocou o Itamaraty
em contato com a OAB em almoço no dia 12 de agosto
para a discussão do tema. "Participamos
da reunião da Comissão da OAB, quando
relatamos o discutido nas reuniões anteriores
e insistimos na importância da participação
da OAB nas negociações da OMC", diz.
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