Bancas
aumentam atuação política
Valor Econômico, 16 de Setembro de 2002.
Depois de viver uma década de franca expansão
nos negócios e em suas estruturas operacionais,
os maiores escritórios de advocacia do país
agora estão começando a tentar aumentar
sua influência política nas decisões
governamentais. A idéia de um (ainda) seleto
grupo de bancas brasileiras é participar da elaboração
de leis, atos e normas e colaborar com decisões
do governo que influenciam na economia nacional.
Um exemplo dessa nova postura dos escritórios
de advocacia é a proposta de alteração
da parte empresarial do novo Código Civil, que
o Centro de Estudos das Sociedades de Advogados
(Cesa) que reúne as principais bancas
do país - enviou ao Congresso Nacional no mês
passado. Essa atitude era impensável há
poucos anos. "Os advogados hoje estão em
sintonia com o que o governo está discutindo
e aproveitando as possibilidades de co-gestão
que estão surgindo", diz o advogado Caio
Leonardo Bessa Rodrigues, do escritório Pinheiro
Neto Advogados.
Entre as principais vantagens dessa nova atuação
dos escritórios estão a atualização
imediata dos profissionais envolvidos nesses processos
e a atuação preventiva na resolução
de "gargalos" na legislação
e nas normas, diminuindo os pontos polêmicos de
leis e atos normativos que normalmente chegam aos tribunais
e provocam insegurança nas empresas e investidores.
Essa nova postura pode ser sentida em todos os grandes
escritórios brasileiros. Os advogados do Pinheiro
Neto, por exemplo, comemoram o resultado de dois anos
da criação da Divisão de Relacionamento
Governamental do escritório. "Sistematizamos
nossa atuação e hoje não apenas
acompanhamos o processo legislativo - como fazíamos
há dez anos - mas atuamos diretamente na edição
de normas e até já somos convidados por
alguns órgãos para atuar na elaboração
de algumas normas governamentais", define Marta
Mitico Valente, sócia do escritório e
responsável pela divisão. De acordo com
ela, esse pioneirismo deve ser adotado por outras bancas.
O Demarest e Almeida Advogados confirma essa tendência.
De acordo com o advogado Roberto Pasqualin, sócio
da banca, há um ano as relações
governamentais são intensificadas. "Não
temos uma centralização desse procedimento,
cada setor do escritório se envolve em suas discussões",
diz. Ele próprio está coordenado um evento
realizado para a Câmara Americana de Comércio
(Amcham) que vai discutir e debater pontos da reforma
tributária para o próximo governo, inclusive
com a participação de assessores dos quatro
principais candidatos à Presidência da
República. "Somos um grupo de advogados
que vai compilar nossas propostas e enviá-las
ao novo presidente", diz. O evento que acontece
na sexta-feira em São Paulo terá como
título "Reforma (re-idéia) tributária".
Ao contrário de apenas acompanhar e participar
de atos que interessam diretamente a um cliente em particular,
essa nova postura não é direcionada. "Participamos
de toda a discussão do Plano Diretor do Município
de São Paulo por interesse institucional, sem
atender a um cliente específico", afirma
o advogado Carlos José Santos da Silva, do escritório
Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados.
A nova filosofia de trabalho é justificada por
alguns advogados com uma maior organização
da categoria. "Acredito que isso é fruto
direto do amadurecimento do Cesa",
afirma Orlando Giacomo Filho, sócio do Demarest
& Almeida. Para ele, essa atuação
dos escritórios, com o Cesa ou de forma independente,
reforça a representação social
da categoria.
Além dessa nova conscientização,
outro ponto primordial para a expansão da atuação
dos escritórios foi o momento político
e a maior abertura dos órgãos públicos.
"Só podemos falar dessa nossa participação
nos últimos cinco anos, quando as instituições
começaram a democratizar as informações
e formas de normatização, com as audiências
públicas, por exemplo", afirma o advogado
Lauro Celidonio Gomes do Reis Neto, sócio do
escritório Mattos Filho, Veiga Filho, Marrey
Jr. e Quiroga Advogados.
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