Proteção
a patente pode criar atrito na Alca
Valor Econômico, 02 de dezembro de 2002
As medidas de proteção às patentes
e outros direitos de propriedade intelectual estão
entre os pontos de atrito que exigirão maior
atenção dos negociadores brasileiros na
Área de Livre Comércio das Américas
(Alca), segundo apontam estudos preparados por escritórios
associados ao Centro de Estudos da Sociedade
de Advogados (Cesa), de São Paulo, a
pedido do Ministro do Desenvolvimento, Sérgio
Amaral.
Os estudos, feitos para orientar os negociadores na
Alca concluem que as propostas dos Estados Unidos em
matéria de propriedade intelectual podem criar
sérios obstáculos à política
industrial, ao uso de novas tecnologias e até
ao registro de direitos de empresas brasileiras na burocracia
nacional.
Os trabalhos, até agora sob sigilo, devem ser
lidos pela equipe do presidente eleito, Luiz Inácio
Lula da Silva. O senador eleito Aloizio Mercadante já
afirmou que, na Alca ou em um eventual acordo bilateral
Mercosul-Estados Unidos, um tema que poderia fazer parte
de uma "agenda positiva" com o governo George
Bush seria a defesa da propriedade intelectual.
Os advogados do Cesa defendem que o tema propriedade
intelectual seja negociado, pelo Brasil, apenas na Organização
Mundial do Comércio (OMC), onde outros países
interessados no assunto, como os da União Européia,
poderiam fazer concessões para compensar os eventuais
custos para o país. A aceitação
das propostas na Alca sobre propriedade intelectual
"reduziria as oportunidades e o poder de negociação
do Brasil no foro apropriado - a OMC", diz o documento
com as conclusões do grupo de trabalho do CESA
sobre a Alca, preparado pelo escritório Newton
Silveira, Wilson Silveira e Associados - Advogados.
O governo George Bush tentará obter, no continente,
compromissos além do atual Acordo sobre Direitos
de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio
(Trips, na sigla em inglês), da OMC, segundo mostram
os especialistas, com base na minuta do acordo da Alca
e as diretrizes fixadas pelo Congresso americano para
os negociadores do país (a Trade Promotion Authority,
ou TPA).
Segundo estudo preparado pelo escritório Felsberg
e Associados, também do Cesa,
as instruções do TPA podem criar problemas
para o Brasil, se aplicadas na Alca, em pelo menos quatro
pontos. Um deles é a exigência de garantias,
nos acordos comerciais assinados pelos Estados Unidos,
de respeito a padrões de proteção
similares aos norte-americanos, muito mais severos que
os da OMC. Isso poderia restringir a adoção
de novas tecnologias pela indústria brasileira.
Outro dos pontos do TPA que exige dos acordos internacionais
medidas contra discriminação em assuntos
de propriedade intelectual, pode limitar a lei brasileira
que permite licença compulsória em caso
de ausência de produção local, segundo
concluem Felsberg e Associados. Há apenas uma
ressalva no TPA, defendendo o acordo, na OMC, que permite
licença para medicamentos em casos de epidemias.
Referências do TPA a direitos sobre novas tecnologias
e "novos métodos de transmissão e
distribuição de produtos" podem levar
a um maior controle sobre a Internet, o que exige um
aparato técnico e administrativo ainda não
disponível no Brasil.
O TPA também ressalta a necessidade de medidas
rígidas para cumprir as leis sobre propriedade
intelectual. Embora o país tenha leis adequadas
às normas da OMC, as limitações
"no âmbito administrativo e judicial nas
áreas civil e criminal" podem abrir espaço
para controvérsias, diz o Cesa.
O TPA exige que o Executivo busque "maximizar"
oportunidades em setores críticos como o de propriedade
intelectual, ressalta o estudo preparado por Felsberg
e Associados. Essa determinação pode dificultar
aprovação de acordos em que o Congresso
não veja essa "maximização"
em matéria de patentes e marcas, aponta o texto.
A minuta da Alca também tem propostas que,
se aprovadas, obrigariam o Estado brasileiro a defender
judicialmente a aplicação dos direitos
de propriedade intelectual. "Sua implementação
exigiria profunda reforma dos códigos de processo
civil e penal brasileiros", diz o documento do
Cesa. Além disso, "atribuiria deveres
às autoridades para as quais as estruturas
administrativa e judiciária brasileiras não
estão preparadas".
Para o Cesa, a ampliação, na Alca, dos
compromissos já assumidos pelo país com
a OMC, entre outras "inconveniências"
obrigaria o Brasil a fazer concessões desproporcionais
às vantagens obtidas, já que países
não membros da Alca se beneficiarão das
medidas a serem adotadas sem terem concedido nenhuma
contrapartida.
As propostas defendidas pelos Estados Unidos na Alca
prevêem, ainda, a adesão a tratados internacionais,
como o Protocolo de Madri, que ainda estão
em negociação pelo Brasil, e o país
perderia a capacidade de negociar mudanças
nesses acordos. Eles não foram aprovados no
país porque contém pontos que, na avaliação
dos especialistas, criam desvantagens para o inventor
nacional e podem reduzir e até eliminar a necessidade
de registro de patentes estrangeiras no país
(os registros seriam feitos no exterior) , provocando
perdas de receitas.
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