Advogados
brasileiros vão à OMC aprender sobre defesa
comercial
Valor Econômico, 17, 18 e 19 de janeiro de 2003
Daniela Christovão, de São
Paulo
Desde janeiro, jovens advogados ligados a grandes escritórios
nacionais estão participando de um programa de
treinamento em defesa comercial e comércio internacional
na missão diplomática brasileira na Organização
Mundial do Comércio (OMC). A primeira turma de
advogados dos escritórios Pinheiro Neto Advogados,
Tozzini Freire e L.O. Baptista voltou em abril e a segunda
turma, composta por advogados dos escritórios
Mattos Filho, Trench, Rossi e Watanabe, Del Chiaro e
Ives Gandra Martins, está compartilhando os conhecimentos
com os diplomatas brasileiros sobre o andamento das
disputas na OMC.
O objetivo desse treinamento é formar no Brasil
um time de advogados especializados em defesa comercial
e comércio internacional para darem assistência
aos setores produtivos exportadores nacionais nas negociações
internacionais e disputas no órgão de
solução de controvérsias da OMC.
Atualmente, quando um setor produtivo brasileiro (ou
de vários outros países em desenvolvimento)
se depara com barreiras comerciais na exportação
de seus produtos, costuma requerer a prestação
de serviços de advocacia de bancas americanas,
situadas em Washington, que desenvolveram um vasto expertise
sobre o assunto.
Mas, pelo fato de o Brasil ser hoje um dos principais
atores na OMC - tendo participado de 45 casos no órgão
(22 como demandante, nove com demandado e 14 como terceiro
interessado) e ser também parte cada vez mais
ativas nas negociações comerciais (poucos
países no mundo participam de quatro negociações
multilaterais concomitantes: Rodada de Doha da OMC,
Mercosul, Alca e Mercosul/União Européia)
- os escritórios de advocacia estão investindo
fortemente no nicho da defesa comercial internacional.
O programa de treinamento foi idealizado pelo Instituto
Brasileiro de Concorrência (Ibrac) e pelo Centro
de Estudo da Sociedade dos Advogados (Cesa)
diretamente com a missão diplomática em
Genebra. O convênio Cesa/Ibrac fez uma seleção,
no começo do ano, de jovens advogados de escritórios
ligados às entidades que tivessem atuação
na área internacional, fluência em dois
ou três idiomas e cursos de pós-graduação
no Brasil e/ou no exterior. E todo o custo dos advogados
em Genebra é arcado pelos escritórios
que os enviam. Segundo Ubiratan Mattos, sócio
do escritório Pinheiro Neto Advogados, o custo
do advogado que eles enviaram a Genebra é de
mais de US$ 3 mil por mês. "Sem contar que
é um profissional que, por quatro meses, deixa
de faturar para o escritório brasileiro",
diz. Mas Mattos acredita que o retorno é de médio
prazo. Ele afirma que em seis meses já estará
colhendo os frutos do conhecimento que Leonardo Peres
da Rocha e Silva conseguiu em Genebra em consultas de
setores produtivos brasileiros em matéria de
defesa comercial. A crença nos bons frutos que
esse conhecimento pode trazer é compartilhada
pelos advogados Marcelo Calliari e Luciana Braga, sócios
dos escritórios Tozzini, Freire e L.O. Baptista,
que enviaram para Genebra as advogadas Vera Kanas e
Cyntia Kramer, respectivamente.
Segundo o embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa,
apesar da terceira turma estar a caminho de Genebra
em agosto, o programa continua sendo experimental. De
acordo com ele, os diplomatas brasileiros ficaram muito
bem impressionados com a atuação dos jovens
advogados da primeira turma no auxílio das atividades
da missão. "Esse é o apoio que podemos
dar para colocar os advogados brasileiros em contato
coma realidade da OMC e formar quadros para atuação
no país", diz. Na prática, se por
um lado os advogados auxiliam os diplomatas nas pesquisas
e colaboram com o conhecimento que têm sobre a
legislação brasileira, por outro lado
eles têm a possibilidade de ver na prática
todos os passos dos mecanismos de defesa comercial e
do andamento dos processos no órgão de
solução de controvérsias.
Segundo Ubiratan Mattos, a expertise que os advogados
vão conseguir na OMC é interessante para
o país porque proporciona para os setores produtivos
nacionais com interesses nas negociações
internacionais a assessoria de advogados brasileiros
altamente qualificados, fazendo com que dispensem a
mão-de-obra dos escritórios americanos.
Como presidente do Ibrac, Mattos afirma que os profissionais
que voltaram de Genebra serão disseminadores
do conhecimento que obtiveram durante a estadia na OMC.
Pelo fato de terem assinado um termo de confidencialidade
no convênio, os advogados que voltaram de Genebra
e os que estão atualmente no estágio não
podem dar entrevistas. O Valor apurou que existe um
certo receio de algumas correntes do Itamaraty na atuação
da iniciativa privada dentro de uma missão brasileira
no exterior. Também existe o receio de que um
número muito grande de advogados procure a missão,
que não tem estrutura para avaliar e suportar
a seleção de um programa de treinamento.
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