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21/11/2022
Consciência Negra: diversidade melhora desempenho das empresas, dizem especialistas
 
No Dia da Consciência Negra, especialistas em diversidade comentam a importância de processos seletivos voltados para pessoas negras no país
Consciência Negra: diversidade melhora desempenho das empresas, dizem especialistas
São Paulo, 20 de novembro – O processo seletivo exclusivo para pessoas negras tem sido cada vez mais adotado por companhias de diferentes setores e o resultado dessa escolha é benéfico tanto à sociedade quanto para as próprias empresas. Neste Dia da Consciência Negra, especialistas consultados pela Mover mostram as vantagens da diversidade para as companhias.
Segundo Amanda Aragão, sócia da consultoria Mais Diversidade, existe uma relação direta entre inclusão e performance financeira, já que a diversidade também gera inovação, permite capturar melhor tendências de mercado e produz engajamento dos colaboradores.
Um estudo da consultoria internacional McKinsey mostra que há uma relação direta entre diversidade étnica e de gênero nas empresas e lucratividade, embora grupos minoritários ainda permaneçam sub-representados nas companhias.
Segundo a pesquisa “A diversidade como alavanca de performance”, de 2015, com dados coletados em 2014, as empresas que têm maior ênfase na diversidade étnica e cultural em suas equipes são 35% mais propensas a ter lucratividade acima da média. Na atualização do levantamento, com dados de 2017, é apresentada uma margem semelhante de 33% de probabilidade de performance superior.
O estudo abrangeu dados de mais de 1.000 empresas de 12 países, medindo  a lucratividade por meio do EBITDA – lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização -, além da criação de valor no longo prazo.
Aragão conta que a inclusão e a diversidade são caminhos efetivos “para catalisar soluções que beneficiam os negócios, pois criam diferenciais competitivos, tornando as empresas mais aptas a dialogar com a sociedade, que é essencialmente diversa racialmente”.
Quem reverbera a visão de Aragão é a presidente-executiva da assessoria de gestão de projetos sociais Espiral Soluções Socioculturais, Ingrid Reis, que também menciona o benefício da diversidade nas empresas para a sociedade como um todo.
De acordo com Reis, a inclusão nas companhias favorece o processo de construção de uma sociedade mais justa, ao mesmo tempo em que contribui para que as empresas coloquem em prática uma parte da sua responsabilidade social, tanto com seus funcionários, com seus clientes, como com o mercado de forma mais ampla.
Reis aponta um passo importante para as empresas nesse caminho de construção de um ambiente de trabalho mais diverso. “É importante entender como as empresas constroem suas políticas de cargos e salários para negros e qual o número de negros que atuam nelas. Ter esse retrato do cenário da companhia fará com que os recursos humanos consigam criar mais ações efetivas de participação de negros nas grandes empresas”.
Processos seletivos para negros
Incomodadas com a disparidade e falta de representatividade em diferentes níveis hierárquicos, algumas empresas têm criado ações, como a abertura de processos seletivos direcionados somente para candidatos negros.
Uma das pioneiras nesse tipo de promoção de ação afirmativa foi a varejista Magazine Luiza, que iniciou em 2020 o seu programa de trainee voltado 100% para pessoas negras. Outro exemplo é da assessoria de investimentos XP Inc, que lançou recentemente o programa de capacitação profissional “Vem Transformar” apenas para mulheres autodeclaradas pretas ou pardas.
“Processos seletivos afirmativos têm sido cada vez mais recorrentes entre as estratégias de atração e seleção corporativas. Felizmente, um número crescente de empresas tem compreendido que seus quadros de funcionários devem refletir a demografia do país em que seu negócio se encontra”, acrescenta Aragão, sócia da Mais Diversidade.
De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, mais da metade da população brasileira autodeclara-se preta ou parda, o que corresponde a mais de 96 milhões de pessoas, enquanto cerca de 94 milhões de brasileiros se consideram brancos, amarelos ou indígenas.
“Atualmente, alguns editais de projetos e empresas até solicitam o perfil de profissionais negros para compor sua diretoria, mas são poucos ainda”, lembra Reis, da Espiral Soluções Socioculturais. “É extremamente importante que mais seleções para diferentes cargos e competências sejam transparentes e que absorvam negros em suas equipes”, acrescenta.
Consciência negra: caso de sucesso
Outro caso de inclusão no meio corporativo é o projeto Incluir Direito, uma parceria entre a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, o Centro de Estudos das Sociedades de Advogados, CESA, e escritórios de advocacia, que tem por objetivo aumentar participação de negros e negras no mercado de trabalho.
“Infelizmente, a sociedade brasileira ainda é muito racista e isso acaba por se refletir dentro dos escritórios, que precisam se conscientizar sobre eventuais barreiras internas em suas estruturas e reorganizá-las”, disse à Mover o idealizador do projeto e presidente do Conselho do CESA, Carlos José Santos da Silva.
A iniciativa, que oferece mentorias para universitários negros com foco em processos seletivos, venceu no ano ano passado a 18ª edição do prêmio Innovare – promovido pelo instituto que tem o mesmo nome da premiação – na categoria advocacia, e o prêmio de Iniciativa para a Diversidade, da comunidade Latin Lawyer, em 2018.
“Processos seletivos corporativos contratando pessoas negras ajudam a dar trabalho digno, salário, direitos trabalhistas, que permitem que a gente consiga reparar essa diferença em relação a rendimento, que até hoje a população negra vive”, diz Kelly Quirino, professora universitária e pesquisadora de relações raciais. “É uma forma da gente pagar essa dívida histórica”.
Ela também acrescenta os benefícios da diversidade para a solução de problemas e o estímulo do pensamento criativo no ambiente de trabalho, que refletem no desempenho de uma corporação.
Com isso, o projeto de Silva – que já funciona em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo -, começa a ser implantado em outras instituições, agora no Rio Grande do Sul. Em entrevista à Mover, o presidente do Conselho conta que o projeto tem uma taxa de 100% de empregabilidade.
“Temos casos até de jovens que estão no exterior, que passaram por esse projeto, e é um projeto que transformou a todos nós. Transformou as nossas sociedades, que eram monocromáticas. Hoje temos um escritório colorido e diverso”.
 
Fonte:TC - SP