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01/12/2020
Entrevista a Carlos Cajé Santos da Silva - Presidente (CESA)

 
Carlos Cajé Santos da Silva é presidente do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (CESA), sócio de longa data do Machado Meyer Advogados e fundador da Incluir Direito, premiada iniciativa de diversidade que busca aumentar o número de negros dentro de escritórios de advocacia brasileiros. Nesta entrevista, 'Cajé', como é conhecido por todos, discute a necessidade de uma maior diversidade no mercado jurídico brasileiro e os objetivos de curto, médio e longo prazo da Incluir Direito.
 
Liga dos Líderes. Qual a história do projeto Incluir Direito?
 
Carlos Cajé Santos da Silva. O projeto começou em 2016 com Paulo Rogério Sehn, sócio da Trench Rossi Watanabe. Ele me ligou e perguntou se poderíamos falar pessoalmente porque, no dia seguinte, tivemos uma reunião com a diretoria do CESA, que reúne cerca de 40 sócios das principais empresas do Brasil. Antes do almoço, Rogério me perguntou quantos negros trabalhavam no Machado Meyer e eu respondi que não sabia. Ele então perguntou quantos parceiros negros nós tínhamos e, ao ouvir essa pergunta, senti uma espécie de despertar, foi um divisor de águas na minha vida. Fiquei realmente envergonhado com essa pergunta porque não tínhamos sócios negros na empresa. O Rogério passou a me dizer que no escritório dele era igual, e que esse assunto estava sendo discutido internamente.
 
Decidimos envolver o CESA no projeto, pois ele já havia desempenhado um papel fundamental nos principais debates envolvendo escritórios de advocacia, como a questão da paridade de gênero, e assim nasceu o projeto. A primeira pergunta que fiz naquela reunião inaugural foi a mesma que o Rogério me fez e as respostas dos sócios de outras empresas não diferiram das nossas. Nossa surpresa foi constatar que menos de 1% dos escritórios de advocacia brasileiros são negros. Esse número mudou minha visão sobre a questão racial no Brasil.
 
Assim, decidimos agir. O principal objetivo da Incluir Direito é transformar. Quando iniciamos este projeto, sabíamos que, acima de tudo, precisava ser um programa educacional. Também precisávamos mostrar aos alunos negros que os escritórios de advocacia têm grande interesse em contratá-los e que sua presença é muito importante. Prova disso é que 100% dos alunos negros que participaram do projeto Incluir Direito estão empregados.
 
Você poderia nos contar sobre as principais iniciativas da Incluir Direito?
 
Para ser um programa educacional, sabíamos que precisávamos construir pontes com as universidades, então começamos a nos comunicar com grupos de estudantes para entender todos os lados da questão. Rapidamente descobrimos que os estudantes negros não tinham interesse em trabalhar em escritórios de advocacia porque não os consideravam ambientes inclusivos.
 
Como queríamos que nossos escritórios atraíssem esses estudantes, iniciamos um projeto para preparar jovens estudantes negros de direito para nossos processos de recrutamento. Simplesmente contratar essas crianças, implantando um sistema de cotas raciais ou impondo seu recrutamento às empresas, mostraria falta de respeito ao seu potencial. Enquanto se preparam para nossos processos de recrutamento, nossos alunos têm aulas com especialistas de RH para entender a dinâmica envolvida em uma entrevista de emprego, como preparar um currículo adequado e muito mais.
 
Com essas medidas simples, já conseguimos amenizar algumas diferenças, pois alguns desses alunos negros são os primeiros da família a fazer faculdade. Com esse tipo de preparação, eles podem iniciar o processo de inscrição igualmente ou até mais preparados do que seus concorrentes.
 
Posteriormente tivemos uma reunião com a Universidade Presbiteriana Mackenzie para iniciar um projeto educacional e a universidade nos apoiou 100%. O Mackenzie desenvolveu todo um projeto pedagógico e criamos um órgão formal dentro da universidade para consolidar a iniciativa.
 
Nosso objetivo de curto prazo é criar um programa de pós-graduação acelerado para jovens advogados negros que não tiveram a oportunidade de ingressar em um projeto como Incluir Direito enquanto estavam na universidade. Como muitas empresas preferem contratar seus próprios estagiários em vez de fazer contratações paralelas, gostaríamos de implementar este novo projeto e atualmente estou procurando uma universidade para levá-lo adiante. Isso permitiria que Incluir Direito também alcançasse alunos de pós-graduação e ajudasse a equipá-los adequadamente para cargos em escritórios de advocacia.
 
Conforme mencionado anteriormente, nossas metas de médio prazo já estão ocorrendo em algumas universidades parceiras. Temos alguns projetos adicionais, como nossa parceria com a associação sem fins lucrativos EducAfro, que criou cursos preparatórios de admissão à faculdade para alunos negros. Nesse sentido, mais recentemente, lançamos o programa Incluir Digital, para arrecadar recursos para a aquisição de tablets, computadores e notebooks para esses alunos.
 
Também conversamos com a Fundação Estudar, fundada por Jorge Paulo Lemann, sobre a criação de uma iniciativa semelhante por meio do CESA com a criação de um fundo para investir na educação de estudantes negros. Esse é nosso objetivo de longo prazo.
 
Você poderia falar sobre os principais impactos do projeto Incluir Direito? Que tipo de iniciativas estão ocorrendo nos escritórios de advocacia brasileiros?
 
Hoje, já se sabe que os escritórios de advocacia e as empresas só se beneficiam da diversidade. Quando estou contratando um jovem advogado, independente de sexo ou raça, tenho em mente que vendemos um serviço, que vendemos conhecimento e, como tal, devo ter as melhores mentes em meu consultório. Para atrair e manter esses talentos, preciso estar mais perto das universidades e que os alunos queiram trabalhar no Machado Meyer Advogados. Se eu não tiver um ambiente inclusivo, eles podem procurar outra empresa, e não me refiro apenas aos negros. Hoje, a falta de diversidade pode significar a perda de grandes mentes e líderes.
 
Antes do projeto, os jovens negros que participavam de nosso processo de recrutamento no Machado Meyer Advogados chegavam como indivíduos tímidos e derrotados. Precisamos capacitar esses alunos e deixá-los saber que pertencem a grandes escritórios de advocacia e que ninguém está lhes fazendo nenhum favor. Quando contratamos um estagiário, estamos sempre olhando para frente e considerando-o como um potencial futuro parceiro. É assim que crescem os principais escritórios de advocacia e precisamos garantir que os jovens estudantes negros entendam que isso também acontece com eles.
 
Mudanças já estão ocorrendo nos escritórios de advocacia. Temos promovido discussões sobre diversidade racial, que já era um tema, mas não um tema central. Agora, falamos sobre as oportunidades do mundo real que devem ser criadas.
 
No Machado Meyer Advogados, agora vemos a questão racial de outra perspectiva. Criamos o IdeAfro, nosso grupo de diversidade racial, para discutir as iniciativas da Incluir Direito e reunir mentores para o projeto.
 
Hoje contamos com 18 firmas-membro apoiando o projeto e sem elas, Incluir Direito não existiria. Essas empresas não apenas fornecem suporte financeiro, mas também fornecem orientação para os alunos do projeto. Precisamos desse espírito de equipe, pois temos a obrigação de ajudar esses jovens advogados, orientando-os e contribuindo para seu desenvolvimento profissional. Devemos realizar essa transformação juntos.
 
Em sua opinião, quais medidas precisam ser tomadas para reduzir a desigualdade racial e aumentar a participação dos advogados negros no mercado jurídico?
 
Um de nossos primeiros desafios na Incluir Direito foi enfrentar os resultados de nossa pesquisa, que mostrou que apenas 1% dos escritórios de advocacia era formado por advogados negros. Os parceiros ficaram chocados e relutantes em publicar esses resultados. Porém, eu disse: “Claro que devemos publicá-los. Publicaremos os resultados e, em seguida, faremos algo a respeito ”. Essa é uma das principais dificuldades, ter uma discussão aberta sobre a questão racial. Admitir o problema e não ter medo de discuti-lo em seu escritório de advocacia é uma das etapas mais importantes.
 
Outro problema importante é a educação. Precisamos mudar o acesso à educação básica no Brasil e lutar para que algo seja feito. Só conseguiremos reduzir essas desigualdades com uma educação básica de qualidade.
 
Finalmente, um dos maiores obstáculos é a nossa própria omissão. Nossa falta de pró-atividade, não só em exigir educação de nossos políticos, mas simplesmente fazer algo a respeito.
 
Que tipo de iniciativas podemos esperar da Incluir Direito nos próximos 12 meses?
 
No Mackenzie, atualmente estamos ampliando o projeto e recebemos recentemente uma nova turma de 26 alunos. Além disso, iniciamos um projeto piloto com 15 alunos da Universidade de São Paulo (USP). Em cada universidade, o perfil dos alunos é diferente, por isso devemos adaptar nosso projeto às suas realidades. Devido à pandemia, infelizmente, tivemos um atraso de seis meses em nosso projeto na PUC-Rio, mas agora as coisas estão voltando aos trilhos.
 
No próximo semestre, esperamos pelo menos dobrar nossos alunos da USP e da PUC-Rio. Recentemente, iniciamos discussões promissoras com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o que é uma ótima notícia. Tivemos um encontro construtivo com os diretores da universidade, para desenharmos um novo projeto juntos e aprendermos uns com os outros como instituições.
 
Em um futuro próximo, espero que tenhamos toda uma geração de estudantes negros de direito efetivamente incluídos nos escritórios de advocacia brasileiros. Hoje, já estamos vendo o início desse ciclo, com jovens advogados negros que participaram de nossa primeira aula já atuando em alguns escritórios de advocacia.

Fonte: Leaders League