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08/12/2021
Projeto Incluir Direito do Cesa vence Prêmio Innovare

"Esse momento é muito importante para dar uma amplitude maior e para levar uma reflexão para as pessoas de quanto o racismo está escondido dentro de nós"/Innovare
"Esse momento é muito importante para dar uma amplitude maior e para levar uma reflexão para as pessoas de quanto o racismo está escondido dentro de nós"/Innovare
 
Iniciativa tem ajudado a aumentar a participação da pessoa negra no mercado jurídico
 
O projeto Incluir Direito, do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (Cesa), foi um dos principais vencedores do Prêmio Innovare de 2021. O projeto está ajudando a aumentar a participação do profissional negro no mercado jurídico, promovendo a inclusão e a diversidade. O prêmio, que reconhece e difunde práticas transformadoras que se desenvolvem no interior do sistema de Justiça do Brasil, está na sua 18ª Edição. Nesse ano, as sete categorias (Tribunal, CNJ/Tecnologia, Juiz, Ministério Público, Defensoria Pública, Advocacia e Justiça e Cidadania) tiveram tema livre. 
 
A equipe de LexLatin acompanhou a cerimônia de premiação, na sede do escritório Machado Meyer, em São Paulo, a convite do Cesa. 


 
A ideia do Incluir Direito surgiu em 2016, quando um grupo de advogados do Cesa - membros do Comitê de Diversidade e Responsabilidade Social - se reuniram para estudar o problema da baixa participação das pessoas negras nas sociedades de advogados. De acordo com uma pesquisa feita na época pela FIA – Fundação Instituto Administração, menos de 1% dos membros dos escritórios (considerando sócios, associados e estagiários) eram negros.
 
Nessa mesma época, os advogados resolveram criar uma ponte entre os escritórios e os estudantes negros. A ideia do projeto é prepará-los para participar dos processos seletivos em condições de igualdade com os demais candidatos, principalmente para as vagas mais concorridas do mercado, como nos grandes escritórios, por exemplo. Por outro lado, os advogados também entenderam que os próprios escritórios não tinham consciência da enorme desigualdade e do racismo estrutural que marcam a realidade social brasileira.
 
Foi assim que, patrocinado por alguns escritórios associados ao Cesa, o projeto surgiu. O Incluir Direito hoje tem 27 escritórios participantes e promove cursos para desenvolver a postura profissional, estratégias para participar de processos seletivos, formas de lidar com situações difíceis em ambientes competitivos, reforço de habilidades de leitura, interpretação e produção de textos, cursos de línguas (inglês), além de reflexões sobre a desigualdade racial no Brasil e a importância da diversidade para realização de uma sociedade igualitária e democrática.
 
"Isso para nós é o resultado de cinco anos de um trabalho de muitas pessoas. Esse momento é muito importante para dar uma amplitude maior e para levar uma reflexão para as pessoas de quanto o racismo está escondido dentro de nós. E nós podemos fazer alguma coisa. Basta querer", diz Carlos José Santos da Silva, o Cajé, idealizador do projeto Incluir Direito e Presidente do Conselho Diretor do Cesa.
 
Para Tito Andrade, managing partner do Machado Meyer, os resultados do Incluir Direito estão ajudando o mercado jurídico a enfrentar o problema do racismo. "É uma enorme vitória, uma emoção muito grande fazer parte desse projeto que é revolucionário. Isso coroa um esforço enorme de muita gente. Tomara que consigamos expandir a iniciativa para outras faculdades e outros cursos. Precisamos mudar a sociedade brasileira", afirma. 
 
Ana Carolina Lourenço, coordenadora do projeto e advogada do contencioso cível do escritório Machado Meyer, acredita que a importância de debater as questões étnico-raciais nos grandes escritórios, nos escritórios de advocacia e na sociedade em geral é reconhecer o racismo estrutural e institucional e saber que os advogados fazem parte dessa transformação para que seja possível diminuir a desigualdade social do país.
 
"As grandes bancas têm a importância e a relevância de trazer toda a cultura e a valorização dos saberes de pessoas negras para dentro das organizações. Equipes mais diversas têm mais pertencimento do que fazem e se engajam mais para trazer o melhor resultado para o cliente", diz a advogada.
 
Victor Santa Cruz, estudante do nono semestre de direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que participou do projeto, conta que o Incluir Direito construiu uma ponte com portas cheias de oportunidades. 
 
"Eu nunca tinha sequer entrado nesses ambientes de grande relevância nacional e internacional. O legal do projeto é justamente isso: aproximar gente que nunca teve essa experiência, que nunca entrou nesses lugares, a começar a perceber esses ambientes e saber que a gente também pode entrar", diz.
 
O projeto começou com a Universidade Mackenzie e foi crescendo. Hoje participam da iniciativa também a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo - USP, a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro- PUC/RJ e a Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
 
"Foi um prazer para nós poder receber o projeto Incluir Direito, de mentoria do Cajé, na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Hoje, a UFRJ é a faculdade que mais tem alunos de direito no país e que mais tem alunos cotistas, portanto, maior quantidade de alunos negros entre as faculdades de direito. Em torno de 50% dos nossos alunos da faculdade são negros. Muitos deles provenientes de favelas, o que também é um problema por conta da questão do CEP. O preconceito com a moradia de favela dificultava o acesso desses alunos a grandes escritórios", diz Kone Cesário, vice-diretora e professora da UFRJ.
 
Para ela, outro grande feito do Incluir Direito é a oportunidade dos alunos terem um trabalho depois de formados. "O que acontecia antes é que muitos dos alunos negros faziam estágio em órgãos públicos, mas terminavam o estágio e não tinham como manter. Eles ficavam desempregados, iam para subempregos e coisas do gênero. Hoje, com o Incluir Direito, temos uma parcela - e esperamos aumentar - de alunos ingressando em escritórios", afirma.

Incluir Direito
 
Mais do que incluir pessoas, a iniciativa traz uma mudança de padrão rumo a um mercado jurídico mais diverso, na avaliação de Cajé. "A sociedade é a grande vencedora dessa história. Muitas pessoas falam que os jovens são os beneficiados. Mas os beneficiados somos nós", diz.
 
Veja os vencedores e homenageados em todas as categorias neste link.

Fonte: Lexlatin - SP